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As credenciais do poeta.

novembro 13, 2009

“Deixe-me ver seus sonetos.”
Manuel Bandeira

Assim Manuel Bandeira respondia as abordagens dos aspirantes a poeta em sua época. A epígrafe descreve um percurso de contato com a forma e o rigor que orientou gerações de poetas e fundou inúmeras escolas literárias.

Tal abordagem permite conjeturar a pertinência de construir formas de expressão artísticas dentro de modelos que cobrem determinada época, porém não avança, devido aos efeitos cíclicos gerados por tal expressão.

Toda forma clássica em suas ocorrências colhe as conseqüências da assimilação e, paradoxalmente, afirma e repele o modelo em suas sucessivas reiterações.

Considerando a manifestação artística na forma soneto, veremos que a limitação imposta pela estrutura lingüística tem variáveis em diversas raízes idiomáticas e, desta forma, provocam consideráveis reflexos nesta forma de expressão.

Os artistas clássicos em suas escolas e movimentos percorreram trajetórias que tornou possível a consolidação desta modalidade de expressão poética. Suas soluções, o domínio de determinados recursos expressivos nos leva a creditar o registro de influencia por simpatia de determinado autor.

A reiterada aliteração em /v/ remete a Cruz e Souza, a rima rica tisne/cisne cita Júlio Salusse, as oitavas heróicas de Lusíadas afirmam Camões. Todos os aspirantes a poeta devem beber e impregnar-se das fontes comuns da alta literatura; Autopsicografia de Pessoa, Violoncelo de Pessanha, Vandalismo de Augusto dos Anjos e tantos outros que reportam aos recursos imprescindíveis para a lírica. O código comum para a poesia não é a palavra, mas a poesia afirmada na trajetória dos demais poetas.

A relação limitada com a criação artística, isto é, na relação com as palavras, os clássicos apontam inúmeras possibilidades que devem ser experimentadas, como alternativa para o apuro da expressão.

Escandir um soneto clássico, buscar e estudar ocorrências raras, tomar contato com os aspectos estruturais da composição poética.
Manuel Bandeira ao solicitar os sonetos, pedia as “credenciais” do diletante, visava atestar o real apreço pelo labor poético ou identificar uma vocação para versos que jamais alcançará a poesia.

A sabedoria do poeta se revelaria adiante quando em sua Poética este juízo se complementaria em seu último verso:

“Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

Esta outra citação reclama a contribuição de cada poeta. Todos falam basicamente uma mesma língua, porém coube aos poetas radicalizarem nas suas criações, e constituir uma expressividade ilimitada através do emprego de aspectos de ocorrência esporádica fora deste contexto. Poetas almejam uma reordenação do pensamento e da expressão, projetando para além do texto a comunicabilidade.

Os novos poetas devem realizar uma nova gramática, realçar os aspectos conotativos apartando a materialidade que limita a expressão e o pensamento. As referencias para o texto poético deve ser estabelecida fora dos parâmetros prosaicos, adequado para seus objetos, agentes e época.

As esporádicas contribuições com o modernismo registram uma atitude inquieta diante dos movimentos contemporâneos, a arte não é uma circunstancia estática; o flerte de Bandeira aponta para uma releitura de sua arte, do seu tempo e uma reflexão sobre seu próprio ofício.

 

Dudu Oliveira.

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