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Tocaia.

novembro 11, 2009

É a segunda cerveja, bebida numa birosca imunda nas entranhas de um ermo esquecido por Deus. Perdera a noção do tempo que durou a campana, o estudo dos hábitos, o comportamento da vizinhança, as considerações profissionais sobre o contrato.

O seu disfarce era um jogo de sinuca, em que alternava derrotas e vitórias para justificar o tempo empenhado, aprendera a misturar-se aos dialetos e hábitos de sua outra esfera; bebia a cerveja ordinária sem pesar e comia as especialidades bizarras do estabelecimento.

O baiano dono do pequeno comércio alimenta um jukebox com as saudades da terra, os sotaques misturam as histórias com um tempo bom que nunca houve, a única arte conhecida era a sobrevivência. Sua encomenda estava do outro lado da rua, o cotidiano miserável de esperanças refundadas nas misérias de ano novo.

Era uma mulher comum de uma beleza desgastada e um sorriso vago, sem alegria. Uma descrição correta para os sonhos confinados nos bairros dormitórios da capital. Não tiveram filhos, viviam a companhia mútua das frustrações, das coisas por realizar e do abandono das esperanças.

O contratante cobrava a reparação da honra, havia tempos que suspeitava da infidelidade da esposa, e registrara mudança de comportamento toda vez que o vizinho ligava sua aparelhagem de som e Caetano cantava: “você só me ensinou a te querer…”. Aquela música passou a infernizá-lo ao ponto de a reparação tornar-se indispensável.

Não havia pressa quanto ao contrato desde a resolução a música operou um efeito inverso, havia um segredo entre ele e Caetano, apenas eles sabiam que eles jamais esqueceriam…

Os dias sucediam havia a campana e as pequenas burocracias sobre o ato:

Que arma?

O que fazer com o corpo?

O contratante exigia uma morte lenta com o reclamado reconhecimento pela parte ofendida, aquela galega estava com os dias contados, caminhava neste mundo por puro capricho.  Olhava para a casa ao lado e pensava incluir o vizinho na encomenda; isto era outro assunto, talvez mais tarde…

Então a luz de um cômodo acendeu com a voz do Caetano: “agora que faço eu da vida sem você”; e ele despertou das divagações monótonas sobre o caso, atravessou a rua e soltou o trinco do portão envelhecido. Apressadamente atravessou o pequeno quintal, a porta negligenciava as chaves como de costume, prevalecia o cheiro cotidiano das preparações na cozinha, na bancada da pia uma faca fatiava um peito de frango.

“Você só me ensinou a te esquecer” cantava Caetano, então ela o encarou e disse:

“Vá tomar banho se quiser jantar agora, ainda bem que não ficou a noite toda na sinuca…”

Ele silenciosamente caminhou em direção ao banheiro.

Dudu Oliveira.

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