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O Padre Evaristo.

novembro 11, 2009

Era flagrante o carisma e a presença física do padre Evaristo, o porte equilibrado e firme sustentava as medidas de um passado de atleta. Havia a voz pausada e clara com a inflexão que os sacerdotes adquirem nas litanias em latim e somava-se a musicalidade herdada de sua família.

Porém, o que mais chamava a atenção na sua figura era a beleza física, um rosto másculo de linhas finas, uma beleza latina mesclada nas raízes nativas com o homem caucasiano. Um padre que chamava a atenção pela sua figura e conseguia transpor o obstáculo das gerações ao inserir os questionamentos mais freqüentes no cotidiano dos jovens em seus ofícios.

Assim, continuamente, o padre foi ganhando importância diante da renovação dos fiéis da diocese. As pastorais envolvidas nas questões dirigidas aos jovens seguiam cooptando voluntários e dando visibilidade a atuação do padre.

Algumas voluntárias desenvolveram uma afeição fora da natureza das atividades do sacerdote, porém ele as desencorajou, de maneira gentil e veemente, e com certo rigor quando o assédio não se extinguia a primeira intervenção.

Desta forma, além da admiração da geração mais jovem, o padre ganhava o respeito da ala mais tradicional dentre os fiéis de sua paróquia.

Havia uma atenção especial relacionada aos drogados, mães solteiras e aos criminosos em busca de regeneração; a competência necessária para lidar com estas situações foi consolidando uma projeção considerável na comunidade.

O delegado incluiu o padre no conselho das penas de prestação de serviços nos delitos leves; o ginecologista do posto de saúde encaminhava as adolescentes grávidas para a atenção pré-natal desenvolvida pelo grupo de mulheres que o auxiliava nestes cuidados.

Era normal as comunidades carentes buscar no padre auxílio na resolução de conflitos, para aconselhamento matrimonial e, sobretudo, nas festividades, quando ele emprestava os seus dons artísticos; quando tocava violão e cantava musicas de um repertório popular relacionado a sua atuação de sacerdote; costumava ser o clímax da reunião.

Seguindo este cotidiano, o padre recebeu do bispo a transferência para uma paróquia maior e, conseqüentemente, mais importante.

Sua atuação era conhecida na região e o bispo teve a sensibilidade de conceder algum tempo para o padre preparar um substituto. Sob a comoção de uma paróquia inteira padre Evaristo foi atuar em outra cidade.

A recepção foi calorosa, havia a curiosidade relacionada à beleza do padre, e o antecessor anunciou uma pequena apresentação musical como forma de aproximar o padre de sua nova comunidade. Tal iniciativa coroou de êxito todas as expectativas dos fiéis e dos padres.

O padre era, de fato, bonito, cantava e tocava muito bem, além de devotar uma atenção excepcional a cada pessoa a que era apresentado.

Os primeiros meses serviram para a paróquia perceber a devoção daquele homem aos seus ofícios, com menos recursos e pessoas o padre criou uma rede de atenção nos moldes da sua situação anterior, e contando com o relato dos seus antigos parceiros, logo teve a atenção do delegado e das entidades que prestavam serviço aos mais necessitados.

A missa de domingo era a única que o padre mantinha uma breve atividade musical, tal fato determinou uma ocupação sem precedentes nas manhãs de domingo, um crescente interesse nesta missa fez com que outros padres de pequenas paróquias retardassem seus ofícios a fim de terem suas atividades prestigiadas.

Percebendo os efeitos de suas atividades, padre Evaristo sugeriu aos outros três padres da região uma missa itinerante que seria rezada em espaços maiores em cada paróquia visando os efeitos de uma atuação integrada e o conseqüente aumento do número de fiéis.

Foi esta itinerancia que trouxe Dona Rosa a presença do padre, uma mulher de beleza excepcional, porém contida em acessórios que utilizava deliberadamente para obscurecer seus atributos.

Usava pouca maquiagem, mantinha cabelos presos, algumas bijuterias, que de tão ordinárias passariam por vulgar; roupas soltas e de modelagem antiga escondiam as formas de um corpo jovem que sua dona teimava em disfarçar com um andar jocoso e desleixado.

Dona Rosa era casada com Camilo, um pequeno comerciante, religioso, de formação austera; quase se tornara padre. Segundo contava, a doença do pai e a depressão que consumiu sua mãe fizeram com que abandonasse a vocação e fosse cuidar de sua família. Apesar dos fatos, jamais deixou de colaborar com a igreja ou de se envolver nas atividades humanitárias que sua paróquia promovia.

Foi numa celebração do mês de maio que se conheceram, o padre atendeu a todos com igual atenção e ouviu Dona Rosa perguntar, curiosamente, se sua beleza física não atrapalhava o seu trabalho junto à comunidade.

O padre respondeu:

– Atrapalha mais as pessoas que não entendem o meu compromisso, que a mim, especificamente. A minha escolha deste tipo de amor, por todos, é melhor que algum amor por uma única pessoa. Dona Rosa ficou surpresa com a resposta do padre e ao mesmo tempo curiosa com a sinceridade dele apresentando seu ponto de vista.

Padre Evaristo cumprimentou Camilo com entusiasmo e o convidou para assistir a missa em sua paróquia, Camilo disse ser uma pessoa muito ocupada e que já estava comprometido com as atividades paroquiais do bairro.

Dona Rosa, porém, adiantou-se em dizer:

– Se o padre for cantar, nós vamos.

O padre sorriu e disse que aos domingos a celebração incluía sempre algumas musicas para celebrar a felicidade que todo homem de Deus deve almejar.

Despediram-se naquele momento deixando o padre com o semblante levemente modificado. A seguir o padre alegou uma indisposição devido à noite mal dormida e pediu licença para se retirar.

As missas de padre Evaristo mudaram a vida de Dona Rosa e Camilo. A semana se arrastava em direção a um domingo efêmero, nas primeiras missas Camilo ainda tentou ficar até o fim, porém alguma coisa foi distanciando-o da celebração e em setembro limitava-se a deixar Dona Rosa na porta da igreja, era o único compromisso que a mulher se aprontava antes do marido.

Outra coisa que mudou foi à forma de Dona Rosa se vestir, a beleza e o viço que antes eram ocultados das vistas da cobiça masculina, ficaram reservados para as aparições de domingo, onde uma produção esmerada dava aquela mulher simples ares de uma feminilidade delicada que evanescia, não havia nada de vulgar ou excessivo, via-se apenas uma mulher bonita transcendendo toda paixão que um corpo pode sugerir.

Havia na pastoral da família uma vaga de voluntária, conforme o anúncio no quadro de avisos da igreja, e foi assim que Dona Rosa passou a freqüentar o salão paroquial, nas tardes de quarta-feira, entre jovens casais e crises de toda ordem, foi tornando-se próxima do padre.

Uma semana antes do natal, durante a reunião do grupo de voluntários, padre Evaristo percebeu traços de melancolia, uma leve tristeza que estava tomando aquela figura. Apesar da afeição flagrante que tinha pelo padre Dona Rosa mantinha-se discreta e envolvida nas atividades paroquiais.

Quando o grupo se dispersava em despedidas, padre Evaristo cercou-a e indagou sobre a sua evidente mudança de espírito, do silencio e da tristeza que ele pressentia em sua voz.

Padre Evaristo pegou ternamente na mão de Dona Rosa e perguntou se havia algo que ele pudesse fazer para aliviá-la da sua tristeza.

Após resistir, por pudor e vergonha, Dona Rosa começou a falar dos seus problemas, de maneira sucinta descreveu o seu namoro, noivado e casamento com Camilo, um bom homem, respeitador e, sobretudo, um ser humano de grande coração.

Contou como se conheceram na pastoral, jovens e apaixonados casaram-se e viviam uma vida de trabalho e dignidade onde a estabilidade e a ordem traziam equilíbrio para a felicidade que estavam construindo.

O padre com muito jeito indagou:

– Onde está o problema?

Quisera não fizesse a pergunta.

– Padre, Camilo está mudado, se não fosse um homem tão correto diria que está me traindo; já faz algum tempo que não temos mais intimidades de marido e mulher, achava que o problema era comigo, comprei roupas novas, modifiquei o cabelo, dei de fazer manicure toda semana e ele não me nota. Ainda ontem, depois de se remexer na cama a noite inteira, foi dormir no sofá.

O padre fez uma pausa silenciosa que pareceu eterna, tomou a mão de Dona Rosa entre as suas e olhando dentro dos seus olhos lhe disse:

– Dona Rosa, seu marido é um bom homem, auxilia os necessitados e cumpre com os deveres perante Deus, é possível que haja problemas de negócio, de família, porém sempre buscamos as razões mais egoístas para justificar a nossa infelicidade. Neste momento, com todo respeito, a senhora busca uma afeição mais calorosa, que talvez não seja amor, esta afeição ocorre o tempo todo e sabemos as conseqüências dela. Dona Rosa preste a atenção em seu marido e veja o que, de fato, o perturba, talvez assim a senhora possa restituir a direção que deixava os dois realizados no casamento.

Dito isto, o padre deu um olhar cúmplice a Dona Rosa e a acompanhou até a saída onde Camilo a aguardava, depois dos cumprimentos seguiram para casa.

As reuniões da pastoral estabeleceram um círculo de confidencias, com descrição o padre buscou conduzir Dona Rosa para uma atitude de compreensão e interesse em solucionar a ausência de Camilo no casamento.

Tanta atenção para uma pessoa despertou o interesse de alguns fiéis, diziam que Dona Rosa se apaixonara pelo padre, associavam o afloramento de sua beleza a uma tentativa de sedução. Os comentários chegaram aos ouvidos do padre antes de saírem dos círculos da igreja.

Numa atitude inesperada padre Evaristo reuniu duas das mais antigas congregadas para pedir auxílio e preservar a reputação de Dona Rosa com relação aos comentários infundados, disse ainda que após a missa de domingo conversaria com o marido para tentar trazer alguma paz para o casamento de duas pessoas de sua estima.

Domingo após um sermão vigoroso contra difamadores e aduladores; padre Evaristo alegou problemas na garganta e cantou apenas uma música. O serviço religioso foi mais curto e os fiéis entre preocupados e frustrados retornaram para suas vidas.

O padre aguardava Camilo que sempre buscava Dona Rosa ao fim da missa. A chegada de Camilo foi lacônica, ele tinha uma expressão vazia e mãos tensas e atormentadas, que percorriam o peito e afundavam-se nos bolsos da calça, tal inquietude não escapou a atenção de ninguém.

O padre convidou-o para um café na sua sala, um tanto embaraçado e meio sem jeito, aceitou. Passaram-se duas horas ou um pouco mais, o padre retornou com o semblante tenso, as mãos agitadas e disse para Dona Rosa:

– O seu marido é um bom homem, está com alguns problemas relacionados a um amigo do passado e tão logo ele possa ajudar este amigo, tudo voltará ao normal. Peço que a senhora vá para casa, que em seguida eu o acompanho, é apenas o tempo de um bom homem se recompor, fique tranqüila tudo ficará bem.

Dona Rosa voltou para casa e nunca mais viu o marido. O padre enviou uma carta solicitando o seu perdão e pedindo que compreendesse a sua fraqueza diante do destino que vinte anos depois, o colocara diante do único amor que o faria renunciar a tudo, como a mais estranha provação.

Dudu Oliveira.

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