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Sobre a Prosa Poética.

junho 20, 2009

 

Prosa e verso são duas definições de maior ocorrência no discurso, que de fato confrontam, sendo o discurso em prosa, “prorsa oratio”, discurso que avança, em oposição ao discurso em verso, discurso que avança e retrocede; portanto, não se opõe a poesia. Não há contradição, e se faz necessário atentar para o curso específico de cada uma das modalidades de discurso.

Considerando que a primeira forma de expressão literária é o discurso metrificado, posteriormente surgirá a prosa por conta dos estudos filosóficos, e em seguida no romance helenístico. Nota-se a primeira sobreposição do teor narrativo ao elemento rítmico no discurso literário.

Durante a Idade Média verso e prosa se alternaram como formas de discurso, sem predominância hegemônica de nenhuma das modalidades; havia exercícios de escola que propunham a transformação do discurso ritmado em prosa livre. A versificação do discurso em prosa também não era incomum.

A circunstancia que relacionava as duas modalidades de discurso era a Retórica e seus princípios de regência, colocadas acima do discurso em prosa e do discurso em verso. A natureza da retórica exigia em sua prática o domínio de aspectos distinto nas duas modalidades de discurso e havia a clausula ritmada, certos aspectos de vocalização e acentuação ao término dos períodos, algo próximo da rima.

A disseminação do estudo da retórica determinaria a simplificação da clausula em três cursus; planus, tardus e velox. As acentuações rítmicas finalizantes que prevaleceram neste período, em verdade, o prosador hábil encontra naturalmente o ritmo adequado para fecho dos períodos.

O Renascimento traz consigo a força da prosa narrativa, livre de imposições rítmicas rígidas e comparada aos modelos da época, despojadas de excessos. Boccaccio, Thomas Morus e Erasmo são alguns dentre os destaques da modalidade neste período.

Embora ainda predominasse a utilização de elementos de ritmo, esta prosa narrativa apresentava unidades mínimas narradoras; explico: as frases regiam-se, primariamente, pelos princípios gramaticais.

O verso continua constituir a unidade mínima de um discurso regido primariamente pelo princípio rítmico. A Prosa poética virá representar um compromisso na importância relativa dos dois elementos formadores do discurso: o semântico e o formal.

Caracterizada pela manutenção, ainda que por vezes à espera de ser explicitada, do princípio rítmico, em detrimento do semântico narrativo. Sendo assim, a função referencial da narração perde em importância no caso da Prosa Poética.

O começo da descrição da serra, na chegada dos amigos de Paris, em A cidade e as Serras, de Eça de Queiros, é dado no enunciado seguinte: “A grandeza igualava a graça”, o que pode ritmicamente reduzir-se à equação (gr=gr). Estamos perante a realização duma das exigências da Prosa poética, realização pontual numa obra de prosa narrativa: a motivação rítmica.

Ao discurso pertence, além do ritmo que o fundamenta exteriormente, a imagética que decorre da revelação subjetiva e instaura um enigma semântico e semiótico, decorrente duma necessidade interna, não semanticamente mediada. Desvinculadas da sua racionalidade utilitária, as coisas do mundo – até as mais insignificantes ou primitivas – têm a possibilidade de se mostrarem belas pela “Necessidade Interna”. Qualquer tema serve com efeito à prosa poética, contento que perca as arestas objetivas e utilitárias, uma das quais é a que pode chamar-se “ética da narrativa”, ou seja, o caminho em direção a um fim exemplar.

A prosa poética leva assim não tanto à fruição semântica, como á fruição das unidades semióticas e, especificamente, de pronúncia, com a marcação de pausas e atenção especial á articulação, á entoação e à criação de melodia. Pode haver mesmo interferência na coerência lógico-semântica, bem como na fonologia e sintaxe em Joyce, ou apenas discretas manifestações isoladas, caso citado de Eça de Queirós.

A linguagem quer dizer, tem função semântica e, ao mesmo tempo, é uma organização com concretude própria, então estas duas funções vão até a latência da segunda no discurso narrativo pragmático, e podem ir até à quase latência na prosa poética.

Mesmo assim, alguns estudiosos são rígidos na diferença que estabelece entre prosa e poesia, e vai mesmo ao ponto de afirmar que na prosa as palavras só devem significar e nada mais. Interessante, pela sobreposição, afinal mimética, do princípio da verossimilhança estilística ao dogma canônico do gênero, é a reflexão que Almeida Garrett faz no prólogo ao Frei Luís de Sousa, onde fundamenta a sua decisão pela prosa.

O exemplo acabado da correção do discurso com intenção poetizante: “do bramido do mar e do rugido das ventanias” vs. “do bramido do mar e do rugido dos ventos”, primeira versão e versão definitiva de Alexandre Herculano.

A substituição de ventanias por ventos cria dois grupos de palavras absolutamente iguais. São duas redondilhas copuladas, que se correspondem ritmicamente até nos pormenores mais pequenos, e nas quais a rima exterior e a interior tornam completa a simetria. Aqui não pode calcular-se que quaisquer impulsos partiram do semântico; aqui, evidentemente, a ênfase rítmica atuou como motivo da modificação.

Em casos em que, como neste, impera a simetria rítmica, a prosa poética é fácil de reconhecer. Se, no entanto, o critério é interno, então pode pôr-se ainda a questão Prosa poética vs Verso livre. A fronteira está nesse caso na legibilidade do texto, e isso poderá corresponder à “intenção de efeito”, em oposição à “intenção de comunicação”. Neste sentido, a prosa poética é prosodicamente sempre prosa.

 

 Dudu Oliveira.

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