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O Formalismo Russo e seu contexto.

junho 20, 2009

Uma observação atenta sobre a crônica das duas primeiras décadas do século vinte registrará um avanço significativo nas relações políticas, artísticas e sociais. As invenções amplificaram a comunicação, via rádio, encurtaram distancias com o uso massivo do automóvel e as concentrações urbanas realizaram os contrastes da diversidade de gosto e atuação intelectual. Arrematando todo este panorama um evento de proporções inimagináveis para catalisar e ordenar toda esta conjuntura: a Primeira Guerra Mundial.

A instabilidade política atingia um grande contingente e abria espaços para as mais variadas manifestações em diversos segmentos sociais. A mobilidade provocada pelo conflito aproximou agentes das mais variadas correntes de pensamento, de inúmeras manifestações artísticas constituindo uma vanguarda que estabeleceria uma nova ordem.

O cubismo expressava uma leitura menos arbitrária nas artes plásticas, a intervenção do artista se afirma em detrimento da interpretação do destinatário; este advento enuncia a necessidade de uma nova sintaxe para reorganizar este código. O dadaísmo e o jazz ganham representatividade como expressão e abandonam a marginalidade e passam a representar o transito da valorização de outras manifestações dentro das letras e da música.

Chaplin estabelece uma relação artística com o cinema; apesar de outras ocorrências no cinema mudo, é Chaplin quem liberta o artístico do entretenimento mágico que prevalecia no cinema. O mundo científico está debruçado sobre a Relatividade de Einstein, nossas noções de ciência estarão alteradas para sempre.

A Revolução Russa derruba o czar e redesenha uma nova Rússia, desde os modos de produção, passando pela conformação social até seus efeitos atingirem os círculos acadêmicos, culturais e artísticos. A nova maneira de se relacionar com os valores gerais irá moldar a atuação dos novos atores dentro da nova Rússia.

Foi nesse contexto que surgiu uma das mais importantes correntes críticas da literatura, o Formalismo Russo, que daria o pontapé inicial para os estudos modernos no campo das Letras.

A designação Formalismo Russo, segundo Todorov e Jakobson, tem cunho pejorativo e era como seus detratores se referiam aos métodos aplicados; mas foi assim que o movimento ficou conhecido. Destacavam-se no grupo Viktor Chklovski, Mikhail Bakhtin, Vladimir Propp, Óssip Brik, Yuri Tynianov, Boris Eichenbaum, Boris Tomachevski e Roman Jakobson.

Os objetivos eram aproximar a crítica literária, então empírica e positivista, de uma abordagem metodológica e científica; opondo-se as doutrinas simbolistas desprovidas de fundamentação filosófica e de método, ou seja, segregava as relações abstratas. Esta abordagem distanciaria as visões de segmentos das escolas literárias e se prenderiam de fato aos elementos de literariedade do texto, ou seja, aquilo que lhe confere caráter literário.

No inverno de 1914, em Moscou, um grupo de alunos funda o Círculo Lingüístico de Moscou; seus campos eram a poética e a lingüística que através de abordagens paralelas explicitaria referenciais comuns aos dois campos. Estas análises representaram significativa inovação nas relações entre literatura e lingüística.

Nesta época foi cunhado o termo função poética, que consolidou a relação dos referenciais conotativos como um elemento primordial na conformação do texto poético e direcionou os estudos naquela época.

A nova ordem social provocava seus reflexos na cena literária russa, e seus atores de vanguarda inquietos com o esgotamento da velha estética e buscando novas formas de expressão, aliam-se ao Círculo Lingüístico de Moscou; da mesma forma como a revolução alterara profundamente a Rússia os novos poetas pretendiam revolucionar a literatura do seu país. Desta forma Maiakovski, Pasternak, Mandelstam e Assiéiev dentre outros participaram do movimento.

A poesia buscava novos rumos estéticos enquanto a crítica já não se importava com a dicotomia existente entre o clássico e romântico, considerando tais preocupações ultrapassadas.

A Ressurreição da Palavra (1914), de Viktor Chklovski, foi à primeira publicação do grupo, seguiu-se a coletânea Poética (1916), de Óssip Brik, cuja finalidade era divulgar os primeiros trabalhos do grupo. Em 1917 surgiu, em São Petersburgo, a OPOJAZ, Sociedade para os Estudos da Linguagem Poética, da qual os dois autores eram membros.

Apesar de sua estrutura teórica o Formalismo Russo não elaborou uma doutrina coesa, que estabelecesse um paradigma em suas conclusões. Os estudos e análises de alguns princípios teóricos que foram sugeridos pelos estudos de uma matéria concreta em suas particularidades específicas; e não por um sistema completo, metodológico ou estético, que daria caráter complementar as partes consideradas.

O Formalismo Russo caracterizou-se pela recusa de abordagens extrínsecas ao texto; psicologia, sociologia, filosofia etc., que serviam de base para estudos literários realizados até então por uma abordagem positivista, não poderiam constituir as bases de análise da obra literária, que deveria ser efetuada por meio dos constituintes estéticos sem relevar aspectos externos.

“O que nos caracteriza não é o formalismo enquanto teoria estética, nem uma metodologia representando um sistema científico definido, mas o desejo de criar uma ciência literária autônoma a partir das qualidades intrínsecas do material literário.”

Teoria da Literatura: Formalistas Russos (Globo, 1976), Boris Eichenbaum.

Os formalistas consideravam que a obra literária não era um mero veículo de idéias, tampouco uma reflexão sobre a realidade; era um fato material plausível de análise. Era formada por palavras, não por objetos ou sentimentos, e seria um erro considerá-la como a expressão do pensamento de um autor.

Os formalistas buscavam criar uma ciência da literatura, que deveria afastar-se de aspectos extra literários, e para que isso fosse possível, a literatura deveria ser estudada isoladamente, daí a necessidade de conceitualização da literariedade, que daria o respaldo necessário para aquilo que almejava: o estudo da natureza autônoma da linguagem poética e sua especificidade como um objeto de estudo da crítica literária.

As opiniões dos formalistas entraram em conflito com os teóricos de inspiração marxista, pois estes consideravam que a nova poética não deveria ignorar as realidades sociais e sua relação com as manifestações artísticas.

Roman Jakobson cunhou uma das mais importantes considerações da postura formalista, que acabou se tornando quase um manifesto do movimento:

“A poesia é linguagem em sua função estética. Deste modo, o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra uma obra literária. E, no entanto, até hoje, os historiadores da literatura, o mais das vezes, assemelhavam- se à polícia que, desejando prender determinada pessoa, tivesse apanhado, por via das dúvidas, tudo e todos que estivessem num apartamento, e também os que passassem casualmente na rua naquele instante. Tudo servia para os historiadores da literatura: os costumes, a psicologia, a política, a filosofia. Em lugar de um estudo da literatura, criava-se um conglomerado de disciplinas mal-acabadas. Parecia-se esquecer que estes elementos pertencem às ciências correspondentes: História da Filosofia, História da Cultura, Psicologia, etc., e que estas últimas podiam, naturalmente, utilizar também os monumentos literários como documentos defeituosos e de segunda ordem. Se o estudo da literatura quer tornar-se uma ciência, ele deve reconhecer o ‘processo’ como seu único ‘herói’.”

Principais características da literariedade, segundo os formalistas:

  • A linguagem literária produz; a linguagem não-literária reproduz;
  • A mensagem literária é auto centrada;
  • Apresenta seus próprios meios de expressão, ainda que se valendo da língua;
  • As manifestações literárias podem envolver adesões, transformação ou ruptura em relação à tradição lingüística, à tradição retórico-estilista, à tradição técnico-literária ou à tradição temático-literária;
  • Aspectos acústicos, articulatórios ou semânticos;
  • Cria novas relações entre as palavras, estabelece relações inesperadas e estranhas;
  • Cria significantes e funda significados;
  • Formas lingüísticas com valor autônomo;
  • Linguagem conotativa;
  • Metáfora ou metonímia;
  • Não existe uma gramática normativa para o texto literário, seu único espaço de criação é o da liberdade;
  • Objeto lingüístico e estético ao mesmo tempo;
  • Paralelismos;
  • Plurissignificação ou polissemia;
  • Predomínio da função poética;
  • Sonoridade, ritmo, narratividade, descrição, personagens, símbolos, ambigüidades, alegorias e mitos;
  • Universalidade.

Acerca da literariedade proposta por Jakobson, Eichenbaum tece algumas considerações:

“Estabelecíamos e estabelecemos ainda como afirmação fundamental que o objeto da ciência literária deve ser o estudo das particularidades específicas dos objetos literários, distinguindo-os de qualquer outra matéria, e isto independentemente do fato de que, por seus traços secundários, esta matéria pode dar pretexto e direito de utilizá-las em outras ciências como objeto auxiliar.”

Viktor Chklovski diz que a língua poética difere da língua prosaica pelo caráter perceptível de sua construção. Jakobson afirma que se a intenção da comunicação detém um objetivo puramente prático, ela faz uso do sistema da língua cotidiana, do pensamento verbal, na qual as formas lingüísticas, os sons, os elementos morfológicos etc., não têm valor autônomo e não são mais que um meio de comunicação.

Um dos fundadores da Teoria da Narrativa, ou Narratologia, Vladimir Propp, ao analisar os componentes básicos do enredo, nos contos populares russos, visando a identificar os seus elementos narrativos mais simples e indivisíveis.

Seus estudos são um ótimo exemplo de análise probabilística aplicada à literatura, configurando o caráter puramente científico que os formalistas pretendiam atribuir aos seus estudos. Propp encarava os contos como algoritmos combinatórios, em que os nomes e os atributos dos personagens constituem valores permutatórios, enquanto suas ações ou funções permanecem constantes, ou seja, nos tais contos, as mesmas histórias eram repetidas, alterando-se apenas os personagens.

A Morfologia dos Contos de Fadas, publicado por Propp em 1928. no qual estabelecia os elementos narrativos básicos que ele havia identificado nos contos folclóricos russos. Basicamente, Propp identificou sete classes de personagens, seis estágios de evolução da narrativa e 31 funções narrativas das situações dramáticas. A linha narrativa que ele traça, ainda que flexível, é fundamentalmente uma só para todos os contos.

O Formalismo Russo influenciou muitos estudiosos e deixou um legado considerável aos estudos literários e lingüísticos. Entre seus sucessores está a Escola de Praga, ou Círculo Lingüístico de Praga, fundado em 1926 por Roman Jakobson, que se mudou para a Tchecoslováquia após a dissolução do Círculo de Moscou. O grupo adotava uma perspectiva semiótica geral para o estudo científico da literatura e, em outro campo, a fonologia viria a tornar-se sua base paradigmática num diferente número de formas.

Os conceitos de Mikhail Bakhtin a respeito de dialogismo, polifonia (lingüística), heteroglossia e carnavalesco, bem como os conceitos de análise estrutural da linguagem, poesia e arte realizados por Roman Jakobson, foram de extrema importância para os estudos modernos na Lingüística e da Teoria na Literatura, influenciando inúmeros autores.

Também fortemente influenciado pelo Formalismo Russo, o Estruturalismo, surgido na França, alcançou grande repercussão no fim da década de 1960 graças aos escritos de Roland Barthes. A crítica estruturalista distinguia-se por analisar as obras literárias por meio da Semiótica, ou ciência dos signos.

O Formalismo Russo estabeleceu a forma e os elementos que seriam preponderantes na análise do texto daquele momento em diante, a literalidade e a narratologia formaram com outros elementos um conjunto de impressões e efeitos que deveriam ser prospectados e valorados nesta nova realidade do texto; que prevalece como referencial sólido ainda em nossos tempos.

Dudu Oliveira.

One comment

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