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A moral e a eugenia.

junho 19, 2009

A clonagem da ovelha Dolly, ao mesmo tempo em que representou um significativo avanço técnico-biológico, trouxe à tona questões de fundo moral e filosófico acerca da manipulação genética. Finalmente o mundo contemporâneo dispunha, comprovadamente, de resultado concreto de uma experiência de replicação de um ser vivo.

O que mais provocou excitação aos diversos segmentos sociais era o fato, que a partir daquele momento, a humanidade dispunha de conhecimento técnico para, segundo conservadores, afinal “brincar de Deus’.

O mundo de hoje é o resultado de muitos confrontos e muitas renúncias; então vejamos todos os paradigmas religiosos, de alguma forma, repudia a interferência humana no processo da reprodução humana e proíbe abertamente qualquer método que não seja o natural para a criação da vida.

Quando do anúncio da réplica de Dolly, as maiores representações religiosas vieram a se manifestar, de forma a registrar os seus protestos quanto à usurpação dos atributos inalienáveis do divino. Tornou-se imperativo defender o mistério da vida como um atributo divino, num período de realizações temporais e evoluções palpáveis oriundas da tecnologia e do conhecimento humano.

Os clérigos de todas as religiões professam a criação da vida, em especial a vida humana, como um elo entre dois mundos, temporal e celestial; ao considerar a possibilidade da obtenção da vida pelo gênio e ciência humana, teríamos a ruptura do pacto celestial, se em algum tempo houver existido.

A ciência, da forma como é praticada, antes de ser um conhecimento é um processo, mais uma relação com o desconhecido que propriamente um novo conhecimento. Cada nova porta aberta pela ciência traz uma nova série de questionamentos, que exige uma reavaliação de tudo o que esta nova informação fragilizou.

Este fenômeno se dá com teorias em todos os segmentos de conhecimento, com os costumes, com as leis e exige da sociedade uma reavaliação das suas posturas; o que às vezes não se dá de maneira pacifica e nem acontece no mesmo espaço de tempo para todos. Alguns avanços do conhecimento chegaram a despertar de tal modo desconforto na humanidade que tiveram sua divulgação controlada.

Desde a antigüidade a ciência e os homens que a praticam tiveram que se defrontar contra as instituições que controlam o senso comum. De Sócrates a Galileu; de Copérnico a Francis Bacon a luta nunca foi pelo conhecimento, mas pelo poder de quem o detivesse ou pudesse controlar os benefícios que tal conhecimento pudesse gerar.

A historiografia tem em seu registro um sem número de personagens que pagaram os mais altos preços na sua busca do conhecimento. Ainda hoje é desta forma primária e ingênua que esta questão é apresentada.

Na antigüidade, a teocracia era a forma de poder mascarada em todas as formas de absolutismo; esta realidade é tão pacifica que não suscitou e não suscita, ainda hoje, quaisquer cuidados com seus registros. Por toda antigüidade veremos registros da influência diretiva de clérigos na obtenção do controle da ciência; e nos momentos em que este controle não pode ser obtido o recurso utilizado foi à decretação de expurgos contra determinadas práticas.

Esta lógica gerou mortes, perseguições e guerras sobre o pretexto de preservar as prerrogativas divinas. Existem exemplos em todas as religiões e pelo que ainda hoje presenciamos, ainda veremos muito mais.

Se observarmos a clonagem de Dolly como um evento da inquietação humana; com origem na necessidade de elucidar suas raízes, teremos que ponderar sobre o muito que os avanços da ciência têm permitido aos homens na sua busca. A sede de saber que tem colocado o homem em confronto com a teocracia é a mesma que tem salvado inúmeras vidas, tornado habitável um ermo qualquer do planeta, obtido determinada vacina e às vezes operado uns quase milagres.

Hoje a base de conhecimento do homem que compõe o senso comum é cada vez mais larga; será necessário mais que o temor do juízo final para submetê-lo; mas a teocracia sabe que a confusão a favorece e não é necessário saber quando existe o medo.

Existe também o mérito incontestável, aquele que soaria ridículo não reconhecer. Para esta situação há a criação do mito que transforma um homem de determinada habilidade ou conhecimento num ser sobre humano, que será legítimo cultuá-lo, ao menos enquanto não possa ser contestado.

Porém existem os dogmas, aqueles que estão acima até do elemento mais óbvio, da realidade mais absolutamente comprovada. Qualquer desvio que represente enfraquecimento do dogma deverá ser publicamente condenado e a sua manutenção defendida a todo custo.

Desde a mais remota noção da criação animal para fins domésticos, o homem vem percebendo que bons reprodutores geram, ou costumam gerar, boas crias. A observação de Darwin em sua teoria da evolução das espécies deu valor acadêmico ao que era de domínio do criador campesino.

Claro que isto é uma simplificação, mas em tese, vivemos com toscas tentativas de atingir melhores resultados na natureza, seja no cruzamento de animais ou na manipulação dos vegetais, entretanto, a utilização deste mesmo juízo quanto à humanidade atinge a moral de algumas instituições e se opõe a dogmas, que reage patrocinando toda sorte de debates, juízos e condenações, se utilizando qualquer meio para manter intacto o seu status na sociedade atual.

No século XIX, a filoxera dizimou a maior parte das videiras da Europa, somente o recurso da manipulação, através de enxerto salvou a atividade vinífera. A classificação dos tipos sangüíneos através do fator Rh deu-se num modelo de pesquisa que pode ser considerada um embrião da pesquisa genética humana.

Estes exemplos servem para evidenciar o quanto há de natural e de intervenção humana nos mais diversos campos do conhecimento.

O homem não faz ciência, ele descobre caminhos e elementos que tornam visível o insuspeitado. Antes de Newton, a invenção da roda já denunciava a evidência da gravidade e se apresentava como artefato, uma intervenção humana se beneficiando de uma força da natureza.

O que não torna menor a importância da observação e do relato acadêmico feito por Newton; mas é devido à falta de limites claros no ordenamento das pesquisas científicas que o homem de ciência ficou distanciado do homem comum e passou mais facilmente a condição de mito, manipulado como um fetiche a serviço de qualquer ideologia.

Nossa sociedade ainda está, em cada atividade em particular, alimentando à busca do Messias, do elemento redentor, mas o que os expoentes desta sociedade almejam é o controle da sociedade, através da sua fome, pela via da alimentação dos seus medos.

O século XX com a sua visão econômica da realidade trouxe a perspectiva da fome e a necessidade de maior geração de alimentos, novamente o homem intervém acelerando as culturas, protegendo-as das pragas, acelerando o ciclo de abate das criações, encurtando o período de engorda através da suplementação alimentar e da seleção de crias e matrizes.

Esta intervenção se mostrou irreversível e aplicável a inúmeras categorias biológicas, inclusive aos homens. A discussão a partir da evolução autônoma do conhecimento colocou os valores morais e teológicos à mercê de uma nova realidade, onde seus valores já não prevalecem e suas posições começam a ser questionadas.

A eugenia faz parte do patrimônio da humanidade, existem registros até em projetos de sociedade; Campanella, Platão, Thomas Moore e tantos outros acrescentaram em seus relatos sobre uma sociedade modelar a reprodução controlada das suas populações, com o objetivo de purgar o meio das imperfeições que naquele momento lhes pareciam prejudiciais.

O que temos é uma reprodução de processos a que outros seres de categoria semelhante foi submetidos e com resultados que nos levam a crer na possibilidade de êxito quando aplicado este conhecimento aos seres humanos.

Daquele momento até os dias atuais a forma de atuar dos que detém o poder não mudou muito. O controle da informação e do conhecimento continua a ser objeto precioso para as elites dirigentes, que quanto mais antiga mais clara fica a sua atuação em busca da obtenção do controle do conhecimento e da informação.

O embate que temos agora é o que tivemos sempre; não é a razão contra o dogma, isto é somente uma alegoria, é a dominação e a manutenção de privilégios que de perpétuos se consagraram em abusos; e ao não reconhecer estes limites, os antigos senhores da razão e guardiões dos dogmas, passaram a cultivar outra via, atemporal, para desqualificar o que pudesse ameaçar o status conquistado.

A eugenia deve ser contextualizada, discutida, e a sociedade, através da sua mais ampla representação deverá acomodar este ramo de conhecimento e estabelecer relações culturais, morais e científicas, para que desta forma a discussão aconteça no fórum adequado; assim a sociedade em sua totalidade poderá fazer uso das suas conquistas.  

 

Dudu Oliveira.

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