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O céu de cinza chumbo.

junho 18, 2009

 

O céu estranhamente foi se tornando cinza e pela primeira vez É atentou para isto, como seu estado se assemelhava a aquela mudança; como as nuvens remexidas e reviradas se pareciam com a sua tempestade interior.

É caminhava pela calçada errante, mas ao mesmo tempo intimamente resolvida. Exaurida de crise em crise, já não comportava mais tamanha desolação.

Mecanicamente enfiou a mão na bolsa e apanhou um cigarro, tateou uma vez mais em busca do isqueiro, tragou ansiosa, súbito estancou vazia ao deparar com a urgência mecânica do gesto, olhou para o cigarro, atirou-o ao chão, pisou como pisasse cada gesto condicionado por uma vontade que não fora sua.

É olhou a volta como buscasse uma testemunha fortuita para sua raiva, sorriu cinicamente ao se perceber discreta, mas no fundo estava magoada por não estar sendo observada; então sentiu a angústia de seguir sozinha.

À sua esquerda se enfileiravam lojas que seguiam feito uma paisagem móvel em desenho de animação. Novamente por um insistente hábito ela estancou diante da livraria que cabia exatamente no seu desejo de gastar o tempo e adiar o confronto consigo mesma.

O reflexo do vidro mostrava um rosto cansado e uma beleza contida, destas que se adivinha de forma especial e se apresenta sem espetáculo. Ela olhou dentro dos grandes olhos amendoados e foi descobrindo a tristeza que estava contida naquela expressão suave.

Prestou atenção nas roupas de tons claros que realçavam suas formas equilibradas, porém discretas, reparou no detalhe do soutien de renda branca que na transparência da blusa lhe conferia um ar delicado de uma sensualidade flagrante, sabia-se bela. Distraidamente passou a mão pelo rosto e este contato fez com que todo torpor esvaísse e seu rosto se contraiu numa expressão de angústia.

A distancia até a sua casa se contava em quadras, umas poucas quadras, que se guardaria em sua memória como fotos de celebração, um ícone para cada memória; a padaria, o bar, a banca de jornal, a pequena mercearia, a pracinha com suas crianças e seus cachorros.

Seguia desfiando suas memórias num ritual de reconhecimento e despedida, ainda poderia fugir para um lugar onde não soubessem quem era, nem sobre a sua natureza trágica. Poderia ir para a Austrália, Nova Zelândia e talvez se chocar com seus costumes e se desprender desta essência caustica que suas vivencias foram acumulando, ao ponto de agora sentir-se diante de um juízo maior que tudo.

Não havia na Terra lugar distante o suficiente onde pudesse se isolar, se libertar da nódoa, da náusea em que se transformara a sua existência.

Todas estas reflexões remexem no seu íntimo, ela balança e chacoalha sob o governo destes espasmos, vindos deus sabe de onde.

Sua mão tremula procura os óculos. É preciso esconder o rosto antes que esta aridez esteja desmascarada; uma onda fria percorre todo o corpo e um arrepio atravessa todas as vísceras; trazendo ânsias que estrangulam sua garganta.

Ah, seria tão bom se sufocasse, se sucumbisse de causa natural e cessasse todo este martírio de estar sóbria e se enxergar despida de tolos disfarces.

É chega a casa, onde sempre se sentiu protegida, guardada; agora esta casa é só o templo de um grande vazio, onde todas as celebrações se embaralham e as confissões se expõem nas pausas e silêncios. Hoje ela não escutará música, não usará nenhum subterfúgio para disfarçar a solidão, seguirá até o fim e pagará qualquer preço para retomar a paz.

A visão da geladeira desperta uma sede ordinária, ela se serve de um copo d’água e logo desmascara o ritual. Solta os cabelos ao mesmo tempo em que deixa escapar um suspiro profundo, as lágrimas teimam em turvar sua visão, aos poucos ela caminha para o banheiro, vai lentamente se despindo, deixando no caminho as roupas e as memórias retalhadas pela sua angústia.

O banheiro com seu cheiro de eucalipto agride com sua assepsia; um grande espelho revela um corpo jovem, cheio de energia. Seios firmes, pernas esguias e um tom alvo contrastam com o castanho escuro dos seus pêlos, com a coloração rósea dos seus mamilos; uma lágrima enorme que se desprende dos seus olhos.

É prepara a banheira com uma água tépida, os vapores embaçam o espelho, só assim ela apaga aquela imagem. Coloca uma toalha grossa numa extremidade para apoiar a sua cabeça e assim ela relaxa.

Pega a caixa de primeiros socorros e sente o espasmo violento de mais uma náusea. Lentamente vai abandonando o corpo no fundo da banheira fecha os olhos e vai se tocando, se reconhecendo, numa reverencia sem par.

Ainda de olhos fechados tateia dentro da caixa de primeiros socorros, seus dedos tocam o aço frio e logo lhe transfere calor, sua carne oferece acolhida, primeiro um braço e em seguida o outro, não há dor é só um formigamento e uma ardência localizada; há um silencio rosa quase rubro, que vai dominando e preenchendo toda aquela  vastidão.

As memórias se embaralham vertiginosas, um homem com mãos vigorosas toca seu corpo, um cheiro tremendamente familiar circunda esta figura, ela o conhece; qual é mesmo o seu nome? Sua boca, sua língua, e este cheiro e este desejo doce de se entregar e de resistir…

As imagens se misturam e aquela mulher de cabelos longos, se parece muito com sua mãe, te abraça com muita doçura e tem os teus olhos tristes, sim seus olhos são tristes como os de sua mãe.

Agora são rostos de homens, famintos e apaixonados que se oferecem e se saciam, mas você que os acolhe em seguida os repele como não fizessem parte de um mundo que só você tem.

Todas as cores estão pálidas a mulher triste te acena um adeus e chora. Uma luz fulgurante te traz uma paz que ainda não experimentara.

Quando uma mão conhecida toca o teu ombro, o mundo já está velho, mas aquele cheiro único, inesquecível reacende seu corpo para o único desejo que ele conhece; o homem sem rosto te toma e te ama com horror e paixão; e o seu orgasmo é mais intenso que a escuridão que chega para te abraçar.

 Dudu Oliveira.

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