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Considerações sobre o lugar comum.

junho 18, 2009

 

A relação de ser e estar deve ser compreendida como lugar comum, onde o sentido absorve as representações construídas numa ordem de elementos disciplinadores. O canon, a regra, o dogma, a opinião, os estereótipos, a comunidade, a publicidade e, ainda, a idealização de rumos advindas dos costumes, casamento, heterossexualidade, educação.

O conjunto representa um referencial do senso comum, com sua organização semântica e compreensão facilitada. Soaria melhor como “lugar semântico comum”; a transformação da memória coletiva em índice das opções de discurso.

O lugar comum tem natureza dialógica e se funda no hábito, de tal forma que o “clichê” passa a condição de modelo de partilha da comunicação. A apreensão semântica estaria de tal forma consolidada que resta ao homem contemporâneo a opção de ascender aos estereótipos.

Convém considerar o estereótipo como um referencial de valores, uma idealização discursiva ou mesmo um elemento de composição na constituição das interações sociais.

Estas considerações exigem um modelo específico para avaliar a institucionalização de atos e relações, por força da cultura ou hábito; seja pela institucionalização de um ponto de vista, um referencial comum prevalecendo como uma “verdade”.

Tomemos o campo artístico, cada universo de saber tem a sua doxa específica, ou seja, um conjunto de pressupostos simultaneamente cognitivos e avaliativos, cuja aceitação é uma implícita submissão ao conjunto. Destarte, seja um juízo ortodoxo ou heterodoxo, tem em comum a adesão tácita a mesma doxa que ratifica a oposição e ordena seus limites.

Considerando a verbalização obrigatória que estabelece uma linguagem pré-fabricada e estereotipada, em que deixa de haver espontaneidade e autenticidade, restando apenas às elaborações conhecidas e formais. Atente-se para a ditadura da palavra onde o inexpressível e o mistério dos silêncios não encontram a sua realização. Um dogma segregado do seu substrato teológico é, segundo Blaga, uma antinomia transfigurada pelo próprio mistério que exprime.

A uniformização de conceitos e ações traduz a repetição como formulação lógica, transformando a reiteração numa comunicação de modus; fica uma questão: quanto ao clichê, o que ocorre primeiro? A repetição que o constitui e confere consistência ou a estabilidade que propicia o reemprego?

 A dessemantização do mundo leva considerar o sujeito como mais ou menos ativo nas relações que mantém com o mundo. O hábito, a robotização arrastou consigo a perda do significado de muitos comportamentos e preceitos; o indivíduo estará assim muito mais inclinado para viver de clichês.

A técnica da informação vai produzir a desmodalização e a desmobilização.  A doxa tem um papel de legitimação da canonicidade discursiva: a canonicidade duma série textual supõe a existência duma instituição discursiva.

A comunicação estética desenvolve-se na esfera da doxa. A língua franca da semiótica constitui uma forma de doxa. Os mestres da manipulação influenciam chefes de Estado, manipulam a informação, fazem e desfazem a opinião.

A comunicação entrou na era da facticidade. As sondagens dizem-nos apenas que as pessoas interrogadas se referem a uma paisagem interpretativa (não a um estado de coisas) acreditando que outros partilham essa mesma interpretação; uma opinião coletiva não é uma proposição, mas um conjunto de proposições de referência, um conjunto de atratores.

O lugar comum como dixis instituinte participa dessas formas enunciativas que têm atrás de si um ‘impessoal da enunciação’. Nenhuma identidade coletiva se mantém sem ideologia e sem a sua metafísica de bolso.

O médium precede a mensagem: primeiro inventou-se o canal e depois o canal impôs a invenção de conteúdos adequados (o CD-ROM interativo). Se as ciências naturais se movem no tempo darwiniano da evolução, as ciências da cultura movem-se num tempo lamarckiano, feito de tradições e de rupturas.

 

  Dudu Oliveira.

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