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A trapaça de Platão.

junho 17, 2009

 

 

A leitura de filosofia é sempre uma empreitada árdua, a única interlocução possível é o confronto direto com a obra, e a prospecção dos resultados se dá no espírito do objeto da experiência, o leitor. A analogia que reflete um modelo fiel a este exercício é a dos atletas individuais, com a sua luta contra suas próprias marcas e limites, desafiando o seu próprio esforço, desdobrando-se, enfim, diante de um propósito possivelmente inatingível.

As inúmeras obras que constituem este patrimônio impressionante, que sem ordenação acadêmica adequada foi se tornando caótico e fragmentado, estabeleceu um labirinto de teses que originou apropriações e segmentações de abordagens descontinuadas, por modelos esgotados, por urgências contemporâneas e até mesmo pelo efeito pernicioso das antíteses.

Fundaram-se inúmeras escolas e conceitos, tornando a própria atividade contemplativa da filosofia numa intervenção física do indivíduo, apartando-o do cotidiano onde a experiência deveria ser desenvolvida e observada.

Uma questão original no estudo da filosofia é a impossibilidade de ler Sócrates, que chega ao conhecimento de todos por suas três fontes conhecidas, Platão, Xenofonte e Aristóteles. Diante de uma minuciosa análise das descrições de Sócrates é possível conjeturar que não era de seu desejo legar suas considerações sobre sua matéria de estudo. Cada referencia que encontramos, seja sobre seus hábitos, seja sobre seus valores, comunicam objetivamente um exercício de sua vontade.

Todos os seus atos, da forma como estão descritos, conduz a convicção de um homem pleno de suas faculdades, senhor absoluto dos seus atos, até na atenção sonegada aos filhos cabe como elemento na analise da sua práxis. Logo é pertinente admitir que fosse vontade de Sócrates que suas teses, sua prática extrapolasse os limites de qualquer descrição, que mesmo ele pudesse engendrar.

A intensidade contida nos registros conhecidos da biografia de Sócrates quando aborda seus embates com os sofistas ou os magistrados, na oportunidade do seu julgamento, inclusive, trazem elementos concretos do alcance das atividades deste filósofo.

Então por que Sócrates na sua objetiva coerência não registrou de nenhuma forma, sua filosofia?

A leitura de filosofia resulta numa experiência profunda, cuja representação e expressão de idéias exigem um altíssimo nível de abstração e uma sincronicidade rigorosa com o texto apresentado; qualquer perda pode significar a corrupção do fenômeno estudado, comprometendo a qualidade do conhecimento prospectado.

O método aplicado por Sócrates exigia uma observação pessoal que seria confrontada através da ironia, esta simples observação exige uma situação pessoal para a consideração do limite do conhecimento individual, até que o interlocutor admita a sua ignorância e aí reconheça as fragilidades das suas certezas.

Percebendo em todo percurso do filósofo o rigor que ele aplicava aos próprios atos, é possível aceitar que para Sócrates a compreensão do limite do conhecimento em cada homem será atingida em buscas pessoais, individualmente e não no modelo sofista de educação.

É possível considerar ainda, que Sócrates cultivava o aprendizado e desta forma vivia a responsabilidade dos seus discípulos, enquanto os sofistas acreditavam na educação e os eventuais desvios de seus alunos eram conseqüência dos vícios destes; sem quaisquer responsabilidades dos seus preceptores.

O conhecimento permanecia imutável, onde sempre esteve e a transcendência caberia ao homem e na sua busca pela virtude, pelo bem e pela justiça.  Quando Platão, Xenofonte e Aristóteles difundem a pessoa de Sócrates e fundam o mito do criador da moderna filosofia ocidental, cria como efeito difuso, uma demanda pelos estudos filosóficos. Ainda hoje inúmeras pessoas acreditam na possibilidade de um estudante de filosofia tornar-se filosofo.

O estudo da filosofia confere bases e conceitos para a evolução do filósofo, do homem que questiona que investiga, que prospecta nas evidencias, que se empenha em desmistificar “verdades” fundadas em mecanismos de assimilação e apropriação, comuns desde sempre, como as crenças e o exercício do poder constituído.

A fundação da Academia colocou o modelo Socrático de aprendizado muito próximo do modelo sofista, houve uma demanda de alunos para esta nova dimensão da propagação do conhecimento, sem que houvesse qualquer indício de contribuição de Platão ao método Socrático.

O vício deste modelo é o deslocamento do conhecimento da possibilidade real do indivíduo para o volume das vertentes exploradas. Tudo o que a filosofia não poderia ser é esta definição de acumulação de conhecimentos, quando nos seus métodos primordiais está claro a necessidade de especular até a base das convicções para reestruturar o indivíduo.

A filosofia de Sócrates projeta o filósofo para um ajuste da polis em direção do bem, da virtude e da justiça. A Academia busca redefinir os homens partindo do estereótipo Sócrates e encontra neste percurso inúmeras ambigüidades, que embora clássicas ainda careçam de uma instrução mais apurada.

Um exemplo de ambigüidade está na Teoria das Idéias em Fédon, quando confrontada com o cerne de Sofista; a matéria não é conclusiva permite diferentes interpretações, então deveria ser objeto da atenção dos filósofos, porém permanece na imutabilidade dos clássicos. 

O campo do filósofo é a realidade e seu laboratório é a perspectiva que esta realidade consegue pronunciar. O método de Sócrates trazia a proximidade dos discípulos, realizava a convivência do filósofo com as diversas visões do seu mundo. Estimulava a desconstrução dos juízos e refutava as certezas agregadas sem questionamento filosófico adequado.

Atualmente a academia propaga livros, teses como fossem conhecimento. As linhas tradicionais de organização do conhecimento acadêmico se diversificaram de tal forma que é possível dois ramos de saber defender teses antagônicas gerando novas ambigüidades, novas contradições.

O conhecimento amplifica o homem básico, ressalta suas qualidades, evidencia suas contradições, porém não repara seus vícios. O desdobramento que a instrução da filosofia tomou a partir deste novo conceito, reflete o esvaziamento da virtude que transformou, para inúmeras pessoas, a existência em repetições, conceituações e comprometimentos inconscientes que não atenuam nem esclarecem suas angústias.

 

Dudu Oliveira.

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